abertura
Quarta, 7 out. 2026 às 16h — 19h
visitação
De 7 out. a 28 nov. 2026
CENTRO CULTURAL DOS CORREIOS
Rua Visconde de Itaboraí, 20
FICHA TÉCNICA
curadoria
Alexia Carpilovsky
iluminação
Pablo Moura
montagem
Gabriel Martucci
sinalização
Ginga Design
agradecimentos
Leandro Barboza
No filme As Praias de Agnès (2008), a cineasta belgo-francesa Agnès Varda conta ao espectador que "Se abríssemos as pessoas, acharíamos paisagens. Mas, se me abrissem, encontrariam praias".
A partir dessa ideia, podemos considerar que os horizontes pelos quais transitamos na vida não são apenas elementos externos a nós, mas também passam a nos compor: ao serem fundidos a memórias e sentimentos, passam a constituir nossas paisagens internas — a topografia que somos. Pensando na relação indissociável entre observador e o que é observado, Fernando Pessoa acreditava que a paisagem exterior existe para cada indivíduo apenas a partir de sua própria paisagem interior, que seriam os sentimentos. Assim, segundo ele, “todo estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem”.
Em sua primeira exposição individual, Roda Santos traz suas paisagens-objetos como um convite para o público mapear seus próprios horizontes e, ao mesmo tempo, reparar o que pode surgir de pequenas movimentações atentas. O artista se interessa pelo ato de gerar paisagens a partir de elementos mínimos — arame, papel, vidro e sombras — moldados e remoldados, multiplicando a capacidade desses materiais e discutindo o que é o vazio.
As paisagens criadas por Roda são como miragens: aparições por vezes turvas, volúveis, que com pequenos movimentos de luz podem ser completamente outras em segundos. Como nossas lembranças, em constante mutação, esmaecimento e até reescrita, os horizontes aqui expostos também têm suas camadas, resultantes da proximidade ou da distância do ponto de origem. Nas obras, a luz preenche e representa calor, como em ‘Deserto’, ou, a partir do vidro, pode evocar a cena afetiva de uma piscina no verão, nos fazendo enxergar água em uma parede branca. Vasculhar, nas recordações, onde estão os desertos e os oásis de nossas trajetórias.
No poema “Paixão”, Adélia Prado escreve que “De vez em quando Deus me tira a poesia. / Olho pedra, vejo pedra mesmo.” Esse processo de desencanto e reencantamento está presente na rotina — do mesmo modo, Roda conta que em alguns dias o arame no ateliê é só arame mesmo. Mas, o percurso por essa exposição propõe que o mais corriqueiro dos materiais possa se tornar um horizonte para cada visitante, uma cadeia montanhosa própria à história e às memórias afetivas de cada um. Que as paisagens miragens criem um espaço de suspensão, entre sonho e lembrança.
Como a cineasta Varda, que exercita em seu filme uma investigação autobiográfica, separar o tempo de estada neste ambiente para pensar quais paisagens estão inscritas em nós, e o que de nós está dito nas paisagens que guardamos.
Alexia Carpilovsky